«A dimensão pluralista da escrita de Fernando Pessoa não se manifesta apenas na criação de uma multiplicidade de personalidades literárias, no desenvolvimento de uma pluralidade de géneros e no cultivo de uma multiplicidade de estilos. O desenvolvimento de um pensamento filosófico na obra de Fernando Pessoa é também expressão da dimensão pluralista da escrita pessoana. É precisamente isso que lemos no seguinte escrito filosófico deste autor:
Milhares de teorias, grotescas, extraordinárias, profundas, sobre o mundo, sobre o homem, sobre todos os problemas que pertencem à metafísica atravessaram o meu espírito. Tive em mim milhares de filosofias das quais – como se fossem reais – nem mesmo duas concordariam.
No espólio de Pessoa encontra-se uma multiplicidade de fragmentos, esquemas e projectos destinados a futuras obras, cujo início se constata, mas que não chegaram a ser concluídas. Nenhum destes esquemas, projectos e fragmentos do espólio filosófico de Pessoa chegou a ser publicado no decurso da vida do autor. Não é sem razão que no poema Tabacaria de Álvaro de Campos se lê: «Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.» Estas palavras, que Pessoa atribui a Álvaro de Campos, caracterizam bem o estado em que se encontra o espólio filosófico de Pessoa: um conjunto diversificado composto por múltiplas filosofias que foram feitas e ainda continuam, em grande parte, mantidas em segredo, a despeito de no espólio existirem mais de mil documentos catalogados sob a designação de filosofia.»