Instituto de Estudos sobre o Modernismo

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domingo, 6 de maio de 2012

Carta-monólogo de Álvaro de Campos

Carta-monólogo de Álvaro de Campos
comunicada mediunicamente a Teresa Rita Lopes

Num iluminador semanário com o nome do astro-rei, de 20-4-2012, deparei com uma entrevista em que o entrevistado, José Paulo Cavalcanti Filho, “advogado pernambucano muito bem sucedido, ex-ministro da justiça de José Sarney”, como é apresentado pela entrevistadora, declara que “a obra de Pessoa é um testamento esperando que alguém o desvende”. O que só agora acontece – com a sua “quase autobiografia”, como a sub-intitulou, de tal maneira, confessa, se identifica com o Fernando. Tenho que reconhecer que é um gesto de grande coragem, visto que o apresenta como bêbado e homossexual, embora honestamente confesse a sua fracassada tentativa de encontrar alguma prova documental, quanto ao último ponto: por exemplo, uma “foto” do Fernando que “explicitasse” (diz ele) essas práticas. (Confesso que o gáudio de imaginar uma dessas fotos me solta o riso e desenruga a mente, que amanheceu chuvosa, como o dia. Desculpe, Fernando! Obrigada, senhor ex-ministro!). Mais: espreitando o Fernando pelo buraco da fechadura das suas investigações, o senhor ex-ministro - que biograficamente falando se identifica com o Fernando, não esquecer - narra as bebedeiras que ele ia cozer para a loja do amigo Eliezer, alfarrabista e judeu russo (“numa cama de arames”, precisa) para quem fabricava poemas a troco de uns trocos. Regozijemo-nos com mais estes inéditos para o activo do Fernando! Aqueles indigentes versos reunidos no livro Alma Errante, assinado Eliezer Kamenesky, saíram afinal da pena mercenária do nosso génio! Alerta, sôfregos descobridores de inéditos pessoanos, podem começar a salivar que vem aí mais material!

“O momento mágico” - revelou o biógrafo à entrevistadora, que lhe perguntara “Qual a fonte mais importante” para a sua quase-biografia - aconteceu no dia em que leu, no meu poema “Tabacaria”, o verso “Se eu casasse com a filha da minha lavadeira talvez fosse feliz”. Então o ex-ministro pernambucano teve a sua epifania suprema: foi a correr à procura da lavadeira de Pessoa, Irene, que por sinal tinha uma filha, Guiomar, “por quem Pessoa se sentiu atraído”. Um pouco mais de coerência, senhor ex-ministro! Então o Fernando era homossexual e sentia-se assim “atraído” do pé prá mão, não só pela filha da lavadeira como pela Ofélia, a quem o Senhor seguidamente responsabiliza pela mudança da minha orientação sexual : diz mesmo que, a partir do namoro com Ofélia, “os textos do Álvaro de Campos vão-se transformando” e, mais radicalmente, “o engenheiro naval aparece casado, com a mulher ao lado a fazer tricô.” E justifica perante a entrevistadora os seus métodos investigatórios: “Quando você não conhece a vida dele não percebe estas ligações.” Desconfie desse seu saber, senhor ex-ministro: homossexual e bêbado sou eu, e com muita honra! – ou orgulho, como agora se diz. Está para nascer a pessoa que tenha visto o Fernando publicamente bêbado ou a namorar com um homem! Vai ter que fazer outro livro para apresentar essas provas!

O entrevistado biógrafo teve também, como o Fernando, o seu “dia triunfal”: esse em que conheceu a lavadeira e a filha de que eu falo em “Tabacaria” e concebeu a sua “quase autobiografia”, produto de incansáveis pesquisas, sobretudo encomendadas : ele até revela o nome de um dos pesquisadores: um tal Eleutério, historiador português, que andou anos à procura duma sapataria Contexto que o biógrafo (ou um dos seus funcionários) encontrou referida em letra impressa, talvez num recibo, ele não diz onde mas afirma ser seguramente fornecedora do Fernando. O historiador a soldo não encontrou rasto dessa importante sapataria mas o biógrafo tinha uma fezada que ela tinha que existir na Baixa, porque o janota do nosso Poeta, afirma ele, nunca se calçaria “na periferia. Só na zona mais cara”. E, ao cabo de grandes trabalhos, não é que o historiador acabou por descobrir – ou não fosse esse Eleutério descendente duma raça de descobridores! – que existira nos anos 20 uma sapataria na Baixa, sim senhor, chamada Contente! E quem exultou de contente foi o biógrafo que nos assegura que Contexto era gralha, o nome da sapataria só poderia mesmo ser Contente! Confesso que esta noite não vou dormir a tentar lembrar-me se a sapataria onde o Pessoa elegantemente se calçava era Contente ou Contexto. É que, sem isso, como afirma o biógrafo, nunca chegaremos ao entendimento da sua obra! - à revelação do “testamento” que a obra pessoana constitui e “que esperou 70 anos” “que alguém a desvende”. Salvé, senhor ex-ministro da Justiça, que com estas iluminantes revelações vai finalmente fazer jus ao génio do Fernando!

Com igual rigor investigatório e interpretativo, diz o autor da biografia (quase) que eu me chamo Álvaro de Campos porque o Fernando tinha um dentista que se chamava Ernesto de Campos! Agora sou eu que me vou pôr a investigar sobre algo de tão importante para a minha identidade: com quantos Campos, além do engraxador, do moço dos recados e do criado de café, lidava quotidianamente o Fernando.

Peço a quem me ler, e tiver alguma informação a este respeito, que faça o obséquio de ma comunicar, que eu não tenho posses para pagar a informadores.

A determinação do nome e sítio exacto da tabacaria inspiradora do meu poema homónimo também fez perder bastante tempo, e sobretudo dinheiro, ao escrupuloso biógrafo que confessa o seu fracasso: nada apurou. Mas afirma a pés juntos que ela ficaria com certeza em frente da “mansarda da casa Moitinho, onde ele fazia serviços de correspondente estrangeiro”. Onde foi ele buscar essa da “mansarda Moitinho”? Outra epifania? Ou será porque eu afirmo nesse meu poema “sou e serei sempre o da mansarda”? Quem o manda levar demasiado a sério as minhas metáforas, sr. ex-ministro?
Mas tenho que reconhecer que deu a ganhar a muita gente: até reuniu uma junta médica para saber de que moléstia morreu o Fernando! “Eu criei uma junta médica. Fiz um calhamaço com todos os textos em que ele falava das dores e doenças e reuni os professores de Medicina mais importantes da minha terra, para sessões aos sábados na minha casa. Foram reuniões mastodônticas, examinando e discutindo toda a documentação. Até que se chegou à conclusão mais plausível de que Pessoa morreu de pancreatite”. Oh Senhor ex-ministro! a essa conclusão chegou há dezassete anos, sozinho, um médico da nossa praça, Francisco Manuel Fonseca Ferreira, que até a publicou em livro (Fernando Pessoa (A penumbra do génio), Livros Horizonte, 1995) – sem precisar para isso de “reuniões mastodônticas”.

Este livro põe-nos perante uma inovadora orientação da ciência médica aplicada a escritores, uma nova forma de autopsiar cadáveres ausentes. Olhe, e já agora, reúna de novo a sua junta médica e pergunte-lhe se pode sofrer de delirium tremens ( que o senhor diagnostica no Fernando) alguém com aquela letra tão certinha como era a dele quando se apurava. Leve-lhes, por exemplo, o requerimento com que ele se candidatou, em 1932, ao lugar de conservador-biliotecário do Museu Conde Castro Guimarães (esse a que o Senhor se refere, chamando-lhe “Museu de Cascais” – por favor, não abandalhe a nobre instituição, que ainda existe!).

Além disso, fiquei a saber, através desta entrevista, que o biógrafo conseguiu acesso a duas cartas da Ofélia “censuradas”, diz ele, isto é, não publicadas pela sobrinha do Fernando, sua proprietária, na esperança de encontrar uma revelação importante : “um aborto, por exemplo”. Oh Senhor Dr. ex-ministro: então diz que o Fernando morreu virgem (“Ele nunca teve mulher ou homem”) e admite que tenha engravidado a Ofélia? Por obra e graça do Espírito Santo, não? Só lhe falta admitir que por intervenção minha!

Mas oh! decepção suprema! o “assunto delicado” que farejava tinha apenas a ver com uma passagem (é a interpretação, errada, do biógrafo) em que a Ofélia conta que “tinha passado mal a noite com aquela “doença mensal” das mulheres”. E o nosso consciencioso biógrafo, que ia à espera de aparar um aborto, teve que se contentar com uns reles pensos higiénicos. Confessa: “Eu quase me mato…” Também não era caso para tanto, Senhor ex-Ministro… Um investigador-biógrafo tem que estar preparado para estas sórdidas surpresas…

Ah! tenho que ser sincero: aprendi uma coisa que não sabia: que o vaidoso do Fernando tinha “receita médica de 12 dioptrias mas usava óculos de 3 para não ficar com os olhos pequenos por causa das lentes grossas, e por isso aceitava ver tudo desfocado ao longe.”

Oh Fernando! só agora percebo porque é que você nunca me acenava quando eu vinha do Rossio, no início da Rua Augusta, e você aparecia emoldurado pelo Arco!

Mas olhe, senhor ex-ministro, coleccionador confesso de relíquias pessoanas: tem a certeza que esses óculos todos que lhe venderam como sendo do Fernando eram mesmo dele? Olhe que esse informador alfarrabista que comprou a loja ao Eliezer, e o pôs ao corrente das sestas alcoólicas que o Fernando lá fazia, teve à venda nesse seu estabelecimento, nos anos oitenta, óculos do Fernando, que eu bem me lembro. Mas creio que também uma bengala dele, e eu juro e trejuro que o Fernando nunca usou bengala nenhuma!

Fiquei impressionadíssimo com outra estória que o biógrafo narra, no livro e na entrevista em questão. Diz ele que a Ofélia contou a um jornalista da Globo que nada escreveu sobre isso nos jornais (rara discrição num jornalista!) mas relatou “como por destino” ao biógrafo (que, para isso, se sente messianicamente eleito pelo Destino!) que, quando o Fernando morreu, passou “toda a noite segurando a mão dele, já morto, no hospital, falando de tudo o que tinha ficado por dizer.” Esta estória – de “um romantismo incrível”, diz o biógrafo - já foi referida, citando precisamente a sua biografia, num congresso recente em que os sobrinhos do Fernando, por acaso presentes, lhe denunciaram a ficcionalidade: o Fernando foi assistido até aos seus últimos momentos, no hospital São Luís, pelo primo médico Jaime Neves que, mesmo que não fosse primo, não ia permitir que alguém ficasse toda a noite, “até ao nascer do dia”, a namorar com um cadáver. Essa gótica prática seria, admito, “de um romantismo incrível” mas, convenhamos, pouco corrente nos nossos prosaicos hospitais.

Agora confesso que estou em pulgas e me vou precipitar sobre o livro para saber a explicação do biógrafo para a razão pela qual o Fernando “tinha vergonha do próprio corpo e qualquer relação não seria nunca consumada.” O ex-ministro não a quis revelar, disse que a mulher o proibira determinantemente de falar disso nas entrevistas. Mas que está no livro. Será que o tal jornalista da Globo ou os investigadores a soldo do biógrafo falaram com alguém que tivesse visto o que, supunha eu, só a Mãe do Fernando contemplara, e apenas na sua primeira infância? O biógrafo ex-ministro tem que me ficar agradecido pela publicidade – e de borla! – que lhe estou a fazer ao livro! Pode ter a certeza que com esta revelação vai meio mundo precipitar-se para o comprar! As pessoas hoje em dia só compram este tipo de obras, em que o autor espreita alguém ou alguens pelo buraco da fechadura – de preferência, em pêlo!

Mas tenho que lhe fazer justiça, senhor ex-ministro desse ramo: tem que amar obsessivamente o Fernando para levar a vida a comprar “tudo” dele (“Eu tenho tudo!”, gabou-se à entrevistadora), até a sua colecção de selos, “os óculos que usava” (lembre-se do que a esse respeito lhe disse há pouco!), “a biblioteca pessoal dele” (então a da Casa Pessoa é imitação?). E eu amo quem ama o Fernando. Por isso, dê cá um abraço e continue a coleccionar “tudo”, objectos e informações sobre ele e os seus arredores, nos quais resido. Prometo que se comprar a Arca, como diz ter intenção, para a doar à Casa Pessoa, eu até lhe confidencio uma porção de coisas que mais ninguém sabe para o seu próximo livro! Faça isso, senhor ex-ministro da Justiça, com o que dará uma justa bofetada ao Estado português, que não comprou, no último leilão dos pertences do Fernando, esse símbolo da nossa identidade nacional, adquirido por um particular, aliás por um preço irrisório. E pensar que, com o dinheiro que foi e continua a ir buscar aos nossos bolsos para pagar os roubos feitos no BPN pelos parceiros e vizinhos do nosso Presidente, o Estado compraria essa arca milhões de vezes!

Prometo que me vou avidamente precipitar sobre o seu livro. Se o senhor entretanto comprar a arca, quem sabe se eu até vou escrever que saber o nome da sapataria onde o Fernando se calçava, e da rua da tabacaria que me inspirou e da lavadeira Irene e sua filha Guiomar é perfeitamente indispensável para entender a nossa obra – nossa, sim, que detenho um razoável número de quotas nessa empresa.

sábado, 5 de maio de 2012

«Fernando Pessoa, Filosofia, Religião e Ciências do Psiquismo Humano» Convite

Convidamos todos a estarem presentes na 8º sessão do ciclo de conferências «Fernando Pessoa, Filosofia, Religião e  Ciências do Psiquismo Humano» que contará com uma palestra conjunta do sobrinho de Fernando Pessoa Dr. Luiz Miguel Roza Dias e da Dra. Maria do Sameiro Barroso. A palestra será subordinada ao seguinte tema:

- "Fernando Pessoa e os paradigmas da normalidade, memória, testemunho e contexto".


A moderação do debate estará a cargo da Professora Teresa Rita Lopes.

A sessão terá lugar na Casa Fernando Pessoa, no dia 9 de Maio, pelas 18h30.

Organização: Paulo Borges, Nuno Ribeiro e Cláudia Souza
.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Pessoa(s) na Escola - Uni-versos Plurais

Conferência subordinada à temática Pessoa(s) na Escola - Uni-versos Plurais, organizada no âmbito do Projeto Mundos em Diálogo, pelo Agrupamento de Escolas de Romeu Correia em parceria com a Câmara Municipal de Almada e o Instituto de Conservação da Natureza e da Biodiversidade - Paisagem Protegida da Arriba Fóssil da Costa da Caparica e Reserva Botânica da Mata Nacional dos Medos, que se realizou no dia 12 de abril de 2012, na Escola Secundária de Romeu Correia, Feijó, Almada. Nesta ocasião, Teresa Rita Lopes e Maria João Serrado fizeram uma palestra sobre a obra de Fernando Pessoa e a escola preparou uma excelente exposição de desenhos e esculturas inspiradas na obra de Pessoa.















quarta-feira, 11 de abril de 2012

Pessoa na Gulbenkian

Confiram as fotos da encenação realizada na Fundação Calouste Gulbenkian no dia 31 de Março.
Foi apresentada por Teresa Rita Lopes a montagem de textos pessoanas que lhe foi pedida, sobre "Pessoa e a Viagem", numa leitura encenada por Nuno Cardoso, assumida por Albano Jerónimo, Sofia Correia e Carlos Pimenta.












quinta-feira, 29 de março de 2012

Dia da Poesia - 21 de Março


Parceiros da Amnistia, sede benvindos! "A poesia implica", ouvi dizer a Manuel Alegre que o ouviu a Sophia de Mello Breyner Andresen.O dia 21 de Março, dia da Poesia, foi assinalado pela Amnistia internacional com uma apresentação de poemas. Confiram! (http://www.amnistia-internacional.pt/index.php?option=com_content&view=article&id=930:a-poesia-nao-discrimina&catid=35:noticias&Itemid=23)

Lágrima de preta
Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
E cloreto de sódio.

António Gedeão

URGENTEMENTE
      É urgente o amor
      É urgente um barco no mar.

      É urgente destruir certas palavras,
      Ódio, solidão e crueldade,
      Alguns lamentos, muitas espadas.

      É urgente inventar alegria,
      Multiplicar os beijos, as searas,
      É urgente descobrir rosas e rios
      E manhãs claras.

      Cai o silêncio nos ombros e a luz
      Impura, até doer.
      É urgente o amor, é urgente permanecer.

     Eugénio de Andrade


 Abelha e vespa

   Matei a vespa
   Poupei a abelha.
   Com que direito
   as julgo?


Teresa Rita Lopes



Acontecido ao ler o pungente artigo do médico Pedro Afonso, no “Público” de 21.6.2010.


Isto não veio nos jornais:
                                            A mão estende-se não para pedir
ou dar esmola
                         mas para exibir um papel já muito segurado
da Segurança Social.
                                       A mão é tosca
                                                                 apalpada por uma vida
de trabalho.
                     A mão está desempregada.
                                                                       O seu corpo também.
Erra de cadeira em cadeira
                                                  de banco de jardim em banco
de jardim.
                   É uma mão desempregada
                                                                 nomeada estatisticamente
entre um milhão de mãos desempregadas.
                                                                               É uma mão
envergonhada do seu ócio.
                                                  Algumas passam uma corda
à volta do pescoço.
                                  Outras batem nos mais fracos.
Outras roubam ou empunham facas.
                                                                    Há mãos que
enlouquecem e apertam gatilhos.
                                                             Outras desistem sobre
as pernas sentadas
                                     inertes como aves mortas.
Que tremenda revoada se todas essas asas levantassem voo!
E aí sim, viriam com certeza nos jornais.

Teresa Rita Lopes

terça-feira, 13 de março de 2012

Novos dados para a história do Futurismo em Portugal

Preâmbulo (Teresa Rita Lopes):
A Patrícia foi minha (excelente) aluna e já então lhe publiquei, na Mealibra, revista nossa parceira, um texto sobre José GomesFerreira.Reagiu ao meu artigo publicado recentemente no Jornal de Letras -agora no nº 2 da nossa Modernista - "Pessoa, empresário da Íbis, "criador de anarquias" e "de civilização"- dando-me uma notícia relacionada com um primo de Pessoa, de Tavira, dono de uma tipografia e de um jornal, de que eu aí falara, e outra, de que nunca ninguém tinha falado...Respondi que a investigação é uma teia tecida a várias mãos e pedi-lhe que desse forma de artigo à importante notícia que me dera. E ela aí está - pela pena da Patrícia, novo membro do IEMO.

Novos dados para a história do Futurismo em Portugal

Patrícia de Jesus Palma[1]

A 20 de fevereiro de 1909, o Figaro publicou o documento fundador de um novo movimento literário, «Fundação e Manifesto do Futurismo», assinado por F.-T. Marinetti, director da Revista Poesia. Tratava-se de um documento incendiário, provocatório e agressivo que correu o mundo.
O seu tom revolucionário permitiu, nomeadamente em Portugal, que fosse lido como uma «blague carnavalesca», cuja data de lançamento, «nas antevésperas de Domingo Gordo»[2], justificava. Quem assim se exprimia era Xavier de Carvalho, correspondente do Jornal de Notícias em Paris, que, a 6 de Abril de 1909, comentando a peça de Marinetti «O Rei Bombance», reafirmava: «O público recebeu a peça de Marinetti à gargalhada, como já tinha recebido com troça o programa dessa escola literária do Futurismo que o Figaro lançara também (segundo todos o creem) por brincadeira.»[3]
Não obstante, Xavier de Carvalho apenas noticia o aparecimento do Manifesto, fazendo pequenas citações que legitimam a sua perspectiva sobre o assunto.
Será Luís-Francisco Bicudo quem, de Génova, remeterá ao Diário dos Açores a tradução integral do Manifesto e da Entrevista de Marinetti, na qual o autor esclarecia algumas das afirmações mais polémicas do texto. Bicudo declarava: «O Diário dos Açores é um dos primeiros, senão o primeiro jornal que apresenta aos seus leitores a nova escola de poesia.»[4]
Em 1981, Pedro Silveira, recenseando a recepção que o Futurismo tivera em Portugal no ano do seu documento fundador, afirma: «O que adiante se reúne, colhido no Jornal de Notícias do Porto e no Diário dos Açores de Ponta Delgada, é tudo quanto na imprensa portuguesa em 1909 foi notícia de ter nascido em Paris, e tendo por pai F.-T. Marinetti, o Futurismo.»[5]
Felizmente, na investigação, nada é definitivo e, por isso, estamos agora em condições de rever esta afirmação, trazendo à liça novos dados para a história do Futurismo em Portugal[6].
Quatro dias antes do Diário dos Açores, a 1 de Agosto, em Tavira, cidade berço de Álvaro de Campos, o jornal O Heraldo («Antigo Jornal de Annuncios») dedicava o seu artigo de fundo a «O FUTURISMO».  Assinou-o Ribeiro de Carvalho, que entre observações pessoais, cita grande parte do Manifesto e da Entrevista, que Luís-Francisco Bicudo viria a publicar na íntegra. Não há, no entanto, nenhuma relação entre os textos dos dois redactores, a não ser naturalmente o seu objecto.
Ribeiro de Carvalho apresenta a nova escola num tom irónico; reconhece-lhe a força – «São estas as musas inspiradoras da nova escola, que pretende tornar os poetas em homens glorificados pela sua acção fecunda na vida, elevando-se com ela» – mas considera-a «uma simples fantasia de poetas».
O texto inicia-se com a referência à origem geográfica da nova ideia:
«chega da Italia, da lyrica e progressiva Milão, com as vibrações de um clarim de guerra, com todo o colorido estranho de um combate á luz crua e ardente do sol dos trópicos e não com a suavidade lendária do radioso ceo da velha terra itálica.
De que se trata? Apenas de uma nova escola literária, á qual o seu creador chamou O Futurismo. E, sendo uma escola poética, dá agora a volta ao mundo, não de lyra trovadoresca sobre o peito, mas de coura e montante, viseira descida sobre o rosto homérico e fatal…»
Depois da tradução de várias passagens do Manifesto e da Entrevista, Ribeiro de Carvalho ironiza: «Dar um beijo em uns lábios inspirados de poeta, para o ouvir cantar em seguida a buzina de um automóvel… Só por uma ironia capaz de empallidecer as estatuas que pelos muzeus tivessem escapado á fúria evangelizadora da nova horda poética…».
Quem assim falava era Joaquim Ribeiro de Carvalho[7], poeta desde os 15 anos[8], a quem Abel Botelho considerava aos 19 ter reatado «a boa tradição renovadora de António Nobre e Junqueiro, por uma fruste legião de medíocres imitadores deploravelmente interrompida.»[9] e Júlio Dantas classificaria como «um dos modernos mestres do soneto português»[10].
Mas não foi a faceta de literato aquela que mais notabilizou Ribeiro de Carvalho: entre a poesia e a tradução[11], Ribeiro de Carvalho tem sido recordado principalmente como herói da República e como jornalista. Em 1897, colaborou no primeiro jornal republicano que foi dado à estampa em Leiria, A Integridade, data a partir da qual espraiou colaboração por grande parte dos periódicos do país, de Norte a Sul e Ilhas.
A sua actividade em prol da República tornou-se incessante. Participou activamente na revolução de 5 de Outubro como aliciador junto do pessoal dos eléctricos e, no dia 5, proclamou a República Portuguesa na varanda dos Paços do Concelho de Lisboa. Em 1911, foi eleito deputado à Assembleia Constituinte pelo círculo de Leiria e sucessivamente reeleito até Maio de 1926, com excepção do período Sidonista (Dez./1917-Dez./1918). Ainda em 1911, criou com António José de Almeida o Partido Evolucionista e o jornal O Radical (Leiria), órgão do mesmo partido, do qual era editor e proprietário. Pertenceu aos Partidos Republicano Português, Evolucionista, Nacionalista e de Acção Republicana. Foi iniciado na Maçonaria também no ano de 1911: primeiro no triângulo n.º 143 de Erra (Coruche), com o nome Liberto, depois passou para a loja Evolutiva (1911), também de Coruche, e, finalmente para as lojas Acácia (1929) e Cândido dos Reis (1933), de Lisboa. Foi membro activo da Carbonária[12].
Entre toda a sua profícua actividade jornalística, destaca-se o período em que dirigiu o jornal República de 1921 a 1924 e depois de 1930 a 1941, que o seu amigo António José de Almeida havia fundado e por cuja memória, em 1930, Ribeiro de Carvalho reanimou.
Nos diversos textos biográficos que consultei acerca de Ribeiro de Carvalho não encontrei, contudo, em nenhum deles, referência à sua colaboração no jornal O Heraldo («Antigo Jornal de Annuncios») (1901-1912) de Tavira, colaboração essa constante e muito significativa[13].
Que relações trariam Ribeiro de Carvalho a Tavira? É o que tentaremos deslindar em seguida.
O Heraldo foi um jornal de longa vida, ao contrário da maior parte dos jornais de província, cuja principal característica é a sua efemeridade. Foi fundado sob a designação Jornal de Annuncios, em 1883, por João Daniel Gil Pessoa, primo em segundo grau de Fernando Pessoa.
Este tavirense[14], visto como «grande empreendedor a quem Tavira deve as mais arrojadas e florescentes das suas empresas industriais»[15], lançou a actividade tipográfica em 1882, fundando a Tipografia Burocrática[16], e iniciou a periodística em 1883.
Profissionalmente era escrivão da comarca de Tavira, o que o terá levado ao estabelecimento da oficina e à fundação do jornal que se destinava sobretudo aos anúncios oficiais das comarcas e das câmaras[17].
Cerca de 1896, João Daniel Gil Pessoa vendeu a tipografia e a propriedade do jornal a José Maria dos Santos[18], que o conduziu até ao n.º 965, de 27/XII/1900, data em que o interrompeu, devido a desentendimentos com a comarca de Tavira. Nesta altura, transformou-o num jornal noticioso e cultural e a 3 de Janeiro de 1901 saiu com o n.º 966 O Heraldo («Antigo Jornal de Annuncios»)[19], publicando-se até 25/II/1912[20].
O Heraldo reuniu à sua volta a elite intelectual da região e foi uma verdadeira escola jornalística e literária para os mais novos. António Crisóstomo dos Santos (1878-1851), filho do director do jornal, foi um dos principais animadores, dedicando-se vida fora ao jornalismo a par da sua principal actividade profissional. Amigo íntimo de João Lúcio, de José Francisco Teixeira de Azevedo e de José Ribeiro Castanho, todos praticamente da mesma idade e estudantes de Direito na Universidade de Coimbra (à excepção de António), fundou com eles, o jornal literário O Reyno do Algarve (13/08-05/XI/1899), onde publicaram textos seus, assim como dos poetas Bernardo de Passos, Bartolomeu Salazar Moscoso e de Teixeira de Pascoaes, colega de curso. Em Coimbra, colaboravam na imprensa local e em jornais como a Ave Azul (Viseu) ou O Campeão (Porto), para onde Joaquim Ribeiro de Carvalho também enviava os seus textos. Não conheço a circunstância exacta que pôs Ribeiro de Carvalho em contacto com este grupo de estudantes algarvios, embora creia que a comum actividade literária e jornalística tenha promovido a natural confraternização.
A 7 de Março de 1901, O Heraldo abriu as páginas a um «Torneio Litterario», tendo em Coimbra e no Porto dois responsáveis pelo concurso: João Lúcio e António Carvalhal, respectivamente. A 4 de Julho publicou o resultado, a fotogravura, a biografia e uma recensão aos livros do vencedor: Joaquim Arnal Ribeiro de Carvalho[21], que havia vencido com 41 votos, a maioria enviados de Coimbra. Estava assim dada a entrada «vitoriosa» de Ribeiro de Carvalho n’ O Heraldo.
A partir de então, a colaboração do poeta e jornalista passou a ser constante, aqui convivendo com poetas algarvios e não só, que recheavam as colunas d’ O Heraldo com os seus textos inéditos: Bernardo de Passos, Maria Velleda, Cândido Guerreiro, Afonso Lopes Vieira, António Correia de Oliveira, João Lúcio, Ribeiro Castanho, Teixeira de Azevedo, Carlos Lyster Franco, Ludovico Caetano de Meneses, Marcos Algarve, Abel Botelho, Manuel Teixeira Gomes, Laurinda Seritram, Raul Proença, Joaquim Rodrigues Davim, Salazar Moscoso, Jaime Quirino Chaves, Augusto de Castro, Augusto Gil, Júlio Dantas, entre outros.
Para além da literatura, os ideais políticos, como a República, a Democracia, a Liberdade, eram comuns à maior parte do grupo de colaboradores d’ O Heraldo. Gente culta, atenta às novidades políticas e culturais, que encontrou n’ O Heraldo de Tavira um espaço de convívio espiritual e de partilha, que acolheu e divulgou não só a modernidade nacional, mas também a europeia, plantando aqui a semente – que viria a florescer em Álvaro de Campos – da primeira vanguarda do século XX: o Futurismo.
Quando em 1917, Carlos Augusto Lyster Franco abriu as colunas do novo Heraldo aos futuristas, aqui colaborando Carlos Porfírio, Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro, Almada Negreiros e Santa Rita Pintor, para apenas referir os nomes mais emblemáticos, o seu gesto não era inédito; mas oficializava a «fantasia de poetas» que Ribeiro de Carvalho anunciara na primeira página do Heraldo de 1 de Agosto de 1909.


[1] Doutoranda em Estudos Portugueses – História do Livro e Crítica Textual, da FCSH-UNL, realizando a sua investigação em torno da formação da cultura literária em espaço periférico (Algarve: 1820-1920). O projecto é apoiado pela FCT e é desenvolvido no âmbito do grupo de investigação «Livro e Leitura» do Centro de História da Cultura. Colaboradora do IEMO.
[2] CARVALHO, Xavier de, Jornal de Notícias, Porto, 27/II/1909.
[3] Id., 6/IV/1909.
[4] BICUDO, Luis-Francisco, Diário dos Açores, Ponta Delgada, 5/VIII/1909.
[5] SILVEIRA, Pedro, «O que soubemos logo em 1909 do Futurismo», Revista da Biblioteca Nacional, Lisboa, 1 (1), 1981, p. 90.
[6] Cf. PALMA, Patrícia de Jesus, A produção literária impressa no Algarve durante os séculos XIX e XX, 2 vols., dissertação de mestrado, Lisboa, FCSH-UNL, 2008.
[7] Nasceu a 7/IV/1880, em Arnal, freguesia de Maceira, concelho de Leiria. Aí fez os seus estudos, com uma passagem pelo Seminário, que abandonou em 1896 para se dedicar ao jornalismo. Veio a falecer em Lisboa a 10/X/1942.
[8] O primeiro livro do autor intitula-se Livro d’um sonhador, Leiria, Tip. Guedes, 1897.
[9] BOTELHO, Abel, «A poesia moderna», in CARVALHO, Ribeiro de, Dolores, 2.ª ed., Lisboa, A Editora, 1906 (1.ª ed., 1899), p. 19.
[10] «Uma carta de Júlio Dantas», in CARVALHO, Ribeiro de, A Eterna Canção: Canção do amor, canção eterna…, Lisboa, Typographia Internacional, 1918, p. 7.
[11] Traduziu J. Rameua, A. Hamon, Zola, Castrorrojo, Louis Bouusenard, Bossi, Maupassant, Shunsuy, Gustave Molinari, Tolstoi, Maximo Gorki, Octave Mirbeau, Blasco Ibanez, Cutulle Mendés, Perez Galdós, paul Bourget, Flaubert , Balzac, para apenas citar alguns.
[12] Cf. MARQUES. A. H. de Oliveira, Dicionário da Maçonaria Portuguesa, vol. I, A-I, Lisboa, Editorial Delta, 1986, col. 288.
[13] Sobre Joaquim Ribeiro de Carvalho, veja-se: MARQUES. A. H. de Oliveira, Dicionário da Maçonaria Portuguesa, vol. I, A-I, Lisboa, Editorial Delta, 1986, col. 288.; SOUSA, Acácio de, VINAGRE, Ana Bela e NOBRE, Cristina (coord.), Dicionário dos Autores do Distrito de Leiria: actualização ao século XX, com fac-símile da edição de 1979, Leiria, Magno, 2004, pp. 810-813; TRIGO, Jorge e BAPTISTA, Luís Miguel, Ribeiro de Carvalho: um republicano com alma de sonhador, Lisboa, Sete Caminhos e Câmara Municipal de Sintra, 2005; http://arepublicano.blogspot.com/2007/12/joaquim-ribeiro-de-carvalho-1880-1942.html.
[14] Nasceu a 14/VIII/1854 na freguesia de Santa Maria e faleceu a 06/09/1902 na rua de S. Braz da mesma freguesia. Foi a enterrar no cemitério do Carmo. Era filho de João Paulo de Araújo Pessoa (natural de Santa Maria, Tavira) e de Maria José da Natividade Gil Cardeira Pessoa (natural de Carcela, Vila Real de Santo António). Casou com Júlia C. Pessoa.
[15] O Heraldo, n.º 1054, 11/09/1902, p. 1.
[16] A oficina foi montada na Rua Borda d’ Água Aguiar, n.os 5 e 7 (actual rua Jacques Pessoa) e depois foi deslocada para a Rua Nova Pequena, 1, 3, 7, 9 e 11 (actual Rua Alexandre Herculano), onde já se encontrava no ano de 1900.
[17] Daniel Gil Pessoa diligenciou nos concelhos de Loulé, Portimão, Lagos e Cuba a edição de jornais semelhantes, de que era co-proprietário, garantindo assim trabalho seguro para a sua tipografia.
[18] Nasceu em 1850 e faleceu em Tavira a 23/08/1921. Casou com Maria do Sacramento Santos e eram seus filhos Maria Catarina Santos, António Crisóstomo Santos, José Maria dos Santos Júnior e Eduardo José dos Santos. José Maria dos Santos foi o fundador da Tabacaria, papelaria e livraria Popular e o segundo proprietário da Tipografia Burocrática e do Jornal de Annuncios, que em 03/01/1901 se converteu n’ O Heraldo. Colaborou nos jornais de que foi proprietário, assim como na maioria dos que se publicaram em Tavira. Desempenhou vários cargos nas Confrarias de Santo António de S. Francisco, na Misericórdia de Tavira, no Hospital do Espírito Santo e no Montepio Artístico Tavirense.
[19] A designação Heraldo era à época dada pelo povo, como narra o director: «Há-de julgar muita gente que o pomposo nome que ora vem substituir o antigo Jornal de Annuncios se deve à arrogante prosápia de qualquer de nós, que sem escrúpulos pela boa razão das coisas, quisesse dar a um simples de província o nome de que usa o mais importante dos jornais do mundo.
                Puro engano. Este segundo baptismo do nosso hebdomadário foi o povo que o fez, esse povo sincero e folgazão que tende a crismar tudo nos mais felizes momentos da sua habitual ironia. Era ele que às quintas-feiras enchia o nosso estabelecimento em procura do “Heraldo” e só ele pode gabar-se da autoria do novo título.» N.º 966, 03/I/1901.
[20] Nesta data foi vendido, assim como a tipografia, aos republicanos Carlos Augusto Lyster Franco e João Pedro de Sousa que os instalaram em Faro e aí iniciaram uma nova fase para O Heraldo subintitulado «Bi-Semanário Republicano Democrático», órgão do Partido Republicano Democrático, que viria, em 1917, a abrir a secção dedicada aos poetas futuristas, «oficializando» o movimento futurista em Portugal, como tem sublinhado Teodomiro Neto (Cf. «O “Futurismo” oficializou-se em Faro com O “Heraldo», Anais do Município de Faro, 2005-2008, vol. XXXV, Faro, Câmara Municipal, 2009, pp. 178-195).
[21] O nome do vencedor surge, por lapso, com «Arnal», visto Ribeiro Carvalho ter concorrido com o pseudónimo Joaquim Arnal, como se sabe, local de nascimento do poeta.