Instituto de Estudos sobre o Modernismo

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quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Prémio Pessoa

O maior ensaísta e filósofo português, Eduardo Lourenço, foi distinguido com o prémio Pessoa 2011.  Considerado por todo jurí e possivelmente em todo Portugal como um pensador extraordinário com uma obra complexa e profunda nos estudos portugueses e pessoanos, Eduardo Lourenço recebeu um diploma e 60 mil euros.
Muito em breve, os muitos admiradores deste ícone do pensamento português poderão ter acesso à sua obra completa. O primeiro dos 38 volumes da sua obra foi recetemente editado pela Fundação Calouste Gulbenkian.
Parabéns ao nosso membro honorário!

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Café e Letras - As Prosas Todas de Álvaro de Campos


Convidamo-lo a estar presente na próxima sessão do Café e Letras – Nós e os Clássicos

Terça-feira, dia 13 de Dezembro, às 19H00


Na Livraria Almedina do Atrium Saldanha, em Lisboa  sobre:

As Prosas Todas de ÁLVARO DE CAMPOS

Convidada: Teresa Rita Lopes

Livraria Almedina
Atrium Saldanha
Praça Duque de Saldanha, 1
Loja 71, 2º Piso
1050-094 Lisboa
Tel: 213 570 428

http://bloguedoscafes.blogs.sapo.pt/

domingo, 4 de dezembro de 2011

3º Sessão - «Fernando Pessoa: Filosofia, Religião e Ciências do Psiquismo Humano»

A 3ª sessão do Ciclo de Conferências «Fernando Pessoa: Filosofia, Religião e Ciências do Psiquismo Humano» ocorrerá no dia 7 de Dezembro de 2011, com início às 18:30, na Casa Fernando Pessoa, e contará com a seguinte programação:

1 - Carla Gago: O Modernismo e o "pré-científico": Ocultismo e Ciências do Psiquismo Humano

2 - Nuno Hipólito: Fernando Pessoa, o supra-Wittgenstein

Nuno Hipólito, além de ser um estudioso pessoano e autor de livros como "As Mensagens da Mensagem",  é actualmente o responsável pela principal referência virtual dos assuntos pessoanos: http://blog.umfernandopessoa.com/
Carla Gago, por sua vez, é uma estudiosa da Biblioteca Particular de Fernando Pessoa. Trabalha actualmente na sua conclusão de Tese de doutoramento sobre a questão da produção dramática no espaço literário pessoano.
Nuno Hipólito e Carla Gago são integrantes do Instituto de Estudos sobre o Modernismo (IEMo). Assim como os membros da comissão organizadora deste evento.

Convidamos, desde já, todos os interessados a estarem presentes nesta sessão.

Organização: Paulo Borges, Cláudia Souza e Nuno Ribeiro.

sábado, 26 de novembro de 2011

Fernando Pessoa - RTP - 30/11

Teresa Rita Lopes participará numa mesa redonda sobre Fernando Pessoa com a Directora da Casa Pessoa, Dra. Inês Pedrosa e o Presidente da Sociedade Portuguesa de Autores, Dr. José Jorge Letria. A intervenção da Professora Teresa Rita Lopes será em torno do tema: "Fernando Pessoa cidadão do seu e do nosso tempo". Sugerimos que participem também no debate: enviem rápido comentário para aqui ser publicado.
A transmissão do programa será do dia 30 de Novembro, aniversário da morte de Fernando Pessoa, no canal 2, das 14hrs às 15:30. Poderá também ser visto através do link:

www.rtp.pt/multimediahtml/video/sociedade-civil/2011-11-30

patrialinguaportuguesa@hotmail.com


Comentários

1º - Anabela Almeida
«Fernando Pessoa e os outros de Orpheu

Passam este ano 120 anos sobre o nascimento de três dos "rapazes" de Orpheu, Luís de Montalvor, a 31 de Janeiro, Alfredo Guisado, a 30 de Outubro e Côrtes-Rodrigues, a 28 de Fevereiro, seria interessante, quanto oportuno, promover um debate em torno destes outros poetas e das suas relações com o mentor da Revista literária portuguesa do século XX. Foi, por exemplo, na página do seu diário de dia 21/11/1914 que Fernando Pessoa registou: "É o Côrtes-Rodrigues quem, de todos, melhor e mais de dentro me compreende. Dizer-lhe isto".»

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Álvaro de Campos - o regresso a Tavira - Carlos Brito


Mão amiga fez-me chegar o livro do I Encontro Internacional Álvaro de Campos, realizado em Tavira nos dias 15 e 16 de Outubro de 2010, em que, com muita pena minha, não pude participar.
O livro é uma edição da Casa Álvaro de Campos, que lhe deu o título sugestivo Álvaro de Campos, o engenheiro de Tavira. Reúne uma dezena e meia de comunicações, na maior parte de investigadoras do Instituto de Estudos sobre o Modernismo (IEMO), além da apresentação da autoria do Presidente da Casa Álvaro de Campos, Carlos Lopes.
Não tenho dúvidas que este livro passa a ser uma peça incontornável para quem quiser tomar conhecimento ou aprofundar o conhecimento da «figura» e da grande poesia do heterónimo que Fernando Pessoa fez «nascer» na cidade do Gilão.
Ao abrir os trabalhos, no 120º aniversário do «nascimento» do autor da Ode Marítima, Teresa Rita Lopes, que dirigiu o Encontro, lançou aos participantes, o desafio de «olhar Campos de um novo ângulo».
A leitura das comunicações mostra que este desafio foi bem sucedido, a começar pelos textos da desafiadora.
Fixou, naturalmente, matéria conhecida, mas indispensável, como o «vivo» retrato de Álvaro de Campos: mais novo (dois anos), mais alto (dois centímetros), mais elegante, desenvolto, endinheirado, vivido e viajado do que o seu criador. Numa palavra, o «retrato melhorado» de Fernando Pessoa.
Merece, contudo, especial realce o que nos diz sobre o papel de Álvaro de Campos no universo pessoano, ou no «drama em gente», na palavra de Pessoa, a partir dos novos poemas conhecidos em 1990 e que ela própria trouxe a público.
Neste espaço reduzido, citemos apenas para seduzir o leitor a sua esplêndida síntese sobre a «imorredoura ficção» do autor de Mensagem, que é afinal Álvaro de Campos:
«Campos assume dramaticamente as duas vidas de Pessoa, a vivida e a sonhada. Representa ser o judeu errante no interior de si próprio, o impenitente solitário, o génio meio louco que Pessoa sofria ser, mas também o viajante cosmopolita com o dinheiro que Pessoa não tinha, escrevendo os seus poemas nos terrasses dos hotéis ou a bordo dos grandes transatlânticos».
É este «algarvio» chamado Álvaro de Campos, a quem a Associação que leva o seu nome já tinha arranjado casa em Tavira, que regressou em força à sua terra natal, faz agora um ano, com a realização do I Encontro Internacional sobre a sua genial poesia, que assim será ainda mais projectada no nosso país e no mundo.

Carlos Brito



quarta-feira, 16 de novembro de 2011

O Instituto de Estudos sobre o Modernismo comparece na Casa Fernando Pessoa

O ciclo de conferências "Fernando Pessoa: Filosofia, Religião e Ciências do Psiquismo Humano" na Casa Fernando Pessoa, teve até o momento duas sessões: a primeira no dia 12 de Outubro com a participação de Paulo Borges, Cláudia Souza e Nuno Ribeiro, e a segunda com a participação de Teresa Rita Lopes e José Blanco.
No dia 07 de Dezembro, às 18:30, na Casa Fernando Pessoa, dois importantes iemistas estarão presentes:
1) Nuno Hipólito fará uma palestra intitulada: "Fernando Pessoa, o supra Wittgenstein"
2) Carla Gago fará uma palestra intitulada: "O Modernismo e o “pré-científico”:  Ocultismo e Ciências do Psiquismo Humano".
É importante lembrar que Nuno Hipólito, além de ser um estudioso pessoano e autor de livros como "As Mensagens da Mensagem",  é actualmente o responsável pela principal referência virtual dos assuntos pessoanos: http://blog.umfernandopessoa.com/
Carla Gago, por sua vez, é uma estudiosa da Biblioteca Particular de Fernando Pessoa. Trabalha actualmente na sua coclusão de Tese de doutoramento sobre a questão da produção dramática no espaço literário pessoano.
O diálogo com a obra pessoana tem sido extremamente proveitoso e a Casa Fernando Pessoa tem contado com a participação intensa dos integrantes do Instituto de Estudos sobre o Modernismo, no palco e na plateia.
Confira as fotos abaixo:













quinta-feira, 20 de outubro de 2011

«Fernando Pessoa: Filosofia, Religião e Ciências do Psiquismo Humano» - 2ª Sessão


No dia 09 de Novembro (na Casa Fernando Pessoa - 18:30), a Professora Doutora Teresa Rita Lopes e o Doutor José Blanco estarão em diálogo em uma palestra cujo tema estará inserido no seminário "Fernando Pessoa: Filosofia, Religião e Ciências do Psiquismo Humano" organizado por Paulo Borges, Nuno Ribeiro e Cláudia Souza.

terça-feira, 4 de outubro de 2011




ÁLVARO DE CAMPOS E ARREDORES – Tavira, 15 de Outubro de 2011


9:30 Inauguração da exposição de fotografias de Claire  Xavier, Lisboa assombrada por Pessoa.

10H. Inauguração dos trabalhos
Palavras prévias do Director da Casa Álvaro de Campos, Dr. Carlos Lopes e do Presidente da Câmara Municipal Dr. Jorge Botelho.
Palestra inaugural, pela Professora Teresa Rita Lopes: “Álvaro de Campos, o chefe de orquestra do romance-drama-em-gente
Seguir-se-ão quatro mesas redondas, (i)moderadas pela Professora Teresa Rita Lopes, assim constituídas:

Manuela Nogueira: Álvaro de Campos - a tempestade à procura de O CAIS
Maria João Infante Serrado: Retratos do Sr. Engenheiro Álvaro de Campos
Luísa Monteiro: A imagística cénica na obra de Campos


Almoço
Cláudia Souza: O Engenheiro Álvaro de Campos e os seus projectos
Maria do Céu Estibeira: Da leitura de Milton e Whitman à estética de Campos
Ana Raquel Roque: As Notas para a Recordação do meu Mestre Caeiro, de Álvaro de Campos – um afloração da realidade na ficção ou da ficção na realidade? 


Pausa Café
Anabela Almeida: Álvaro de Campos, o mestre de Violante de Cysneiros
Nuno Ribeiro: Capturar-se a si próprio nos mais vastos círculos – a Ode Marítima e a experiência dionisíaca

Final dos trabalhos: Colocação de uma placa com poema de Campos: “Notas sobre Tavira”

Entidades Organizadoras: Casa Álvaro de Campos e IEMo
Comissão Organizadora: Teresa Rita Lopes, Cláudia Souza e Nuno Ribeiro.
Cartaz: Maria João Infante Serrado

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

“Dá-me rosas, rosas / E lírios também” - Teresa Rita Lopes


“Dá-me rosas, rosas / E lírios também”

A relação de Pessoa com a Natureza, em geral, e com as flores, em particular, dá que pensar. Sobre a Natureza, já o fiz mas sobre as flores, em particular, estou a fazê-lo pela primeira vez. E com muito regalo.
Talvez porque a primeira paisagem que o dimensionou foi o Largo de São Carlos, onde nasceu e cresceu e com certeza brincou até aos cinco anos, Pessoa é um inveterado citadino. No triciclo em que o vemos montado, numa das suas fotografias de menino, terá feito, nesse amplo largo, marcantes viagens.
Viveu mais dois anos em frente de outra paisagem urbana, na Rua de São Marçal, para onde a família se mudou depois da morte do Pai – já sem largueza para expandir as suas brincadeiras, só uma rua para atravessar.
A ida para Durban deve ter constituído um terrível choque para esse menino habituado a ver uma cidade bonita da sua janela, com o debrum azul do rio, ao fundo - a que só deve ter dado o devido valor quando desembarcou nessa feia povoação recente, de pioneiros, pouco mais que quatro ruas improvisadas. A sua capacidade de se isolar e viver num sítio imaginado deve ter começado então. Era para a pátria-língua-inglesa, borbulhante de cultura, que o remetiam as fecundas leituras, no liceu de Durban, que deixou fama de ter um alto nível, e as que incansavelmente fazia, a sós consigo, na casa familiar. Aí se instalou, nessa Inglaterra mítica, e aí foi relativamente feliz o “português à inglesa” que mais tarde, num poema, declarou ser.
A irmã contou que, para ir para a escola, atravessavam uma mata donde saltavam macacos que a apavoravam. Também o Fernando devia estremecer de medo perante essa natureza tropical, plena de imprevistos e sobressaltos.
Mais tarde – em 1923 – Pessoa confessará numa carta a um amigo que o convidara a ir passar algum tempo consigo, na casa de campo de seus pais, que tinha “a alma insuficientemente panorâmica” e que estava “fincado em Lisboa senão como uma árvore pelo menos como um poste”. E até acrescentava, em nítida contradição com o seu Alberto Caeiro, que “há rios tão estúpidos que parecem gente”.
De facto, Caeiro refere a sua “raiz, relação directa com a terra” – de cuja ausência o eterno deambulante Álvaro de Campos se queixa. Pessoa, na sua própria pessoa, considera negativa, num poema de Mensagem, “a lição da raiz”:

Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz
ter por vida a sepultura.

Mas precisamente porque sente falta de uma “relação directa com a terra” é que Pessoa criou esse que Campos denominou “Espírito humano da terra materna”, Alberto Caeiro.
Ao contrário dos “outros” pessoanos, nitidamente urbanos, Caeiro, apesar de ter nascido em Lisboa, instala-se no campo, e aí enuncia os seus preceitos para uma arte de viver sem dor e de morrer em paz, como o dia morre. Ele próprio se diz um “intérprete da Natureza” (GR, XXXI) – o que quer dizer o contrário do que parece: Caeiro não a interpreta para lhe atribuir sentido mas para afirmar que, ao contrário do que os poetas pretendem, as coisas da Natureza não têm “sentido oculto” nenhum, são só o que ali está.
No meu recente passeio pela obra de Caeiro para reparar nas flores que por lá há, verifiquei que são aí uma presença constante, mas nem sempre com a mesma função.
Em geral, não lhe dá nomes: chama-lhe apenas flores. Num verso, declara “Não há rosas no meu quintal” (CAEIRO, Alberto. Poesia. Edição de Fernando Cabral Martins e Richard Zenith. Lisboa: Assírio & Alvim, 2001.p.157) talvez para bem vincar que as não cultiva e que só se interessa pela “flores que há nos campos”. Do seu poeta modelo, Cesário Verde, diz que “o modo como olhava” para as casas, ruas, pessoas era o de quem “anda a reparar nas flores que há pelos campos” (Ibidem, GR III). Dir-se-ia que é essa também a sua maneira de olhar para o mundo.
Distanciando-se dessas “pobres flores”, como lhes chama, “nos canteiros dos jardins regulares” (Ibidem, GR XXXIII), fala das flores à solta, nos campos por onde passeia, e diz “esta flor”( Ibidem, p. 116), como quem a colhe e a contempla entre os dedos. Esse “intérprete da Natureza” - que faz as vezes de um verdadeiro oficiante, incutindo a arte mimética de nos parecermos com essa Natureza que apenas se cumpre e nunca pensa - desenvolve, a partir da contemplação da flor, os seus ensinamentos e até, às vezes, o que poderemos chamar as suas parábolas.
Assim anuncia: “Creio no mundo como num malmequer, porque o vejo.” (Ibidem, GR II) Curiosamente, só dá nome específico ao malmequer e ao girassol. Quando se apaixona, confessa: “Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.” Os seus olhos adoecidos pela paixão deixam de “ver, apenas ver” o que está diante deles para serem olhados por ela, obsessivamente presente na realidade que o rodeia, que um voluptuoso pesadelo transforma num girassol gigante.
Mas quando está de boa saúde, apenas fala de simples flores. E para proclamar a ausência de “sentido oculto” das coisas do mundo – que, segundo a concepção cristista, existiriam para cantar a glória de Deus – Caeiro afirma “as flores não são senão flores” (Ibidem, GR XXIV), “Eu amo as flores por serem flores, directamente” (p. 144), não por fazerem lembrar isto ou aquilo nem sequer por serem belas. Além disso, são desprovidas de utilidade, sem outra serventia que existirem, simplesmente. É assim que no VIII º poema do Guardador de Rebanhos diz que o Menino Jesus (que identifica com a sua “vida de poeta”) “colhe as flores e gosta delas e esquece-as” e “arranca flores para as deitar fora” (Ibidem, p.37).
Também faz questão de acentuar que não estabelece com as flores qualquer parentesco sentimental, o que seria coisa dos “poetas místicos” que ridiculariza: “Os poetas místicos dizem que as flores sentem” (Ibidem, GRXXVIII) mas “as flores não são senão flores”, repisa, noutro poema (Ibidem, pp. 58 e 62) porque, como acentua, “A Natureza não tem dentro”. Por isso insiste: “Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la / E comer um fruto é saber-lhe o sentido” (Ibidem, GR IX)
E afirma, claramente: “Para quê me comparar com uma flor, / Se eu sou eu / E a flor é uma flor?” (Ibidem, p.146)
Mas a verdade é que se compara.
“Penso e escrevo como as flores têm cor” diz, embora “me falte a simplicidade divina de ser só o meu exterior” (Ibidem, GR XIV).
As flores são, pois, divinas, manifestações de um deus que não há (Ibidem, p.31): “Só a Natureza é divina mas ela não é divina”: com esta aparente contradição quer ele dizer que essa divindade da Natureza não implica transcendência, como na religião cristista, cuja crítica subjaz permanentemente em tudo o que afirma e nega, embora a tenha sempre como ponto de referência.
Assim não deixa de dizer das plantas que são “santas”: “as minhas irmãs, as plantas, / As companheiras das fontes, as santas / A quem ninguém reza” (Ibidem, p.47?)
Deixa entender que escreve com a mesma espontaneidade com que a planta dá flor (XLVIII). E compara os seus versos a flores, dizendo que: “não podem ser belos e ficar por imprimir, / Porque as raízes podem estar debaixo da terra / Mas as flores florescem ao ar livre e à vista.” (Ibidem, p.107)
Alberto Caeiro aparece-nos assim como uma espécie de xamã, exercendo as suas terapias sem teorias nem espiritualismos, sem necessitar de recorrer à transcendência, permanecendo apenas no rés-do-chão da Natureza, dando às coisas o perfeito sentido de não terem “sentido oculto nenhum” – de nada significarem nem simbolizarem. Ao Pessoa que afirma, em diversos textos, pela própria boca ou pela dos seus outros que “tudo é símbolo e analogia” (Fausto), Caeiro responde que “as coisas não têm significação, têm existência”.
É contudo preciso lembrar que as flores de que Caeiro fala, em geral, são apenas “maneiras de dizer” (como diz da Primavera), apenas apercebidas com a vista ou apenas pensadas.
Pessoa não devia perceber nada de flores nem ter, com elas, mais do que uma experiência literária. Escreve: “O cheiro que os crisântemos teriam se o tivessem”. Ora acontece que os crisântemos têm mesmo cheiro e até com ele se confeccionam perfumes.
Só quando se apaixona, Caeiro se relaciona sensualmente com as flores através do cheiro: “Agora que sinto amor / Tenho interesse nos perfumes. / Nunca antes me interessou que uma flor tivesse cheiro. […] Hoje as flores sabem-me bem num paladar que se cheira.” Nos poemas da série “O Guardador de Rebanhos”, as flores, frequentemente nomeadas, eram só para vista. Nos do “Pastor Amoroso”, solicitam outros sentidos: o cheiro e o paladar. Num deles até diz: “acordo e cheiro antes de ver”. Curiosamente, nos últimos poemas “Inconjuntos”, quando se declara doente e a morte se aproxima, intervém o tacto (Ibidem, p.128-9) : “Sinto-me parte das cousas com o tacto” (Ibidem, p.129). É então que profundamente sente o que é ter “raiz, ligação directa com a terra, / E não esta espúria ligação do sentido secundário chamado a vista / A vista por onde me separo das cousas” (Ibidem, p.128). Como se vê, quando adoece para morrer, afirma o contrário do que anteriormente – contradição voluntária, porque quando está doente deve dizer o contrário do que quando está de boa saúde, como esclarece.
Noutro poema, de 20.4.1919, em que fecha os olhos e se deita na terra, estão presentes esses sentidos que habitualmente negligencia: a audição, o cheiro e o tacto (Ibidem, p.159) E só nessa altura fala de “gozo”: “Gozar uma flor é estar ao pé dela, inconscientemente”.
E diz aqui que ver anula o gozo. Deitado na erva, atento aos “ruídos indistintos das coisas a existir”, descreve a sua relação voluptuosa com “a dureza fresca da terra cheirosa e irregular”. Diria que este poema, em que Caeiro se relaciona através dos diferentes sentidos com “as coisas a existir”, é da série “O Pastor Amoroso”. (Também noutro poema, p.166, o surpreendemos no mesmo estado de espírito e corpo, deitado “ao comprido na erva”.)
Concluindo, as flores são, para Caeiro, exemplo dessa “simplicidade divina” que gostaria de ter: “Penso e escrevo como as flores têm cor/ mas com menos perfeição no meu modo de exprimir-me / Porque me falta a simplicidade divina / de ser só o meu exterior.” (Ibidem, p.47)
As flores são, portanto, como toda a Natureza, divinas, mas dessa “comum divindade” a a que Caeiro aspira, sem além, apenas ao rés da terra. Diz, num poema:

Penso nisto, não como quem pensa, mas como quem não pensa,
E olho para as flores e sorrio…
Não sei se elas me compreendem
Nem se eu as compreendo a elas,
Mas sei que a verdade está nelas e em mim
E na nossa comum divindade
De nos deixarmos ir e viver pela Terra
E levar ao colo pelas estações contentes
E deixar que o vento cante para adormecermos,
E não termos sonhos no nosso sono.
(Ibidem, GR XXXVI)

Contrariamente ao que afirma noutros versos, as flores afinal comunicam uma “verdade” e dão um exemplo de vida de que ele partilha – por isso fala da “nossa comum divindade”. Curiosamente usa duas expressões próximas a respeito dele e das flores: “simplicidade divina” e “comum divindade”. E essa “verdade” que ele diz estar em ambos – “nelas e em mim” – tende a exprimir-se através das palavras. É afinal dessa mensagem que ele se faz “intérprete” – embora se dê conta da sua contradição e apelide essa função de “coisa odiosa”.
É como se sentisse esse “primeiro homem” - que menciona num poema - que viu pela primeira vez flores “e lhes tocou levemente / Para ver se elas falavam…” (Ibidem, GR XXXIII)
Como o tal “S. Francisco de Assis do Novo Paganismo” que foi feito ser, Caeiro fala de “As minhas irmãs as plantas” e diz que são “as primeiras verdes palavras que [a Terra-Mãe] tem / As primeiras coisas vivas e irisantes / Que Noé viu / Quando as águas desceram “ (Ibidem, GR XVII). 
Sem querer, à voz de Caeiro sobrepõe-se muitas vezes, como neste caso, a de Pessoa que busca em tudo “a frase silenciosa que contem”. Por isso é que Caeiro não faz mais, ao longo dos 49 poemas do Guardador de Rebanhos, que tentar ser o “intérprete” das “verdes palavras” da Natureza, balbuciadas pelas suas mais amáveis criaturas, as flores.
Só falei até aqui da relação com as flores do heterónimo que a elas se refere constantemente - e não há tempo para mais. Acrescentarei apenas que para cada heterónimo, a sua flor. O verso de que tirei o título para esta comunicação é de Pessoa/Campos (não entrarei aqui nos problemas da duvidosa atribuição): “Dá-me rosas, rosas / E lírios também, / Crisântemos, dálias, / Violetas, e os girassóis / Acima de todas as flores…”
Para o autor destes versos as flores são apenas um lenitivo para as dores da alma: “Deita-me às mancheias por cima da alma”, pede.  
É claro que Caeiro nunca diria uma coisa destas, até porque nunca se queixa das dores da alma, ele que tinha em mente “o corpo mais corpo que pode haver”. (Ibidem, p.154)
Prometi inicialmente dar a conhecer poemas meus inspirados pelas flores. Mas depois de ter indicado o título, que naturalmente me surgiu sob a forma desses versos de Pessoa, resolvi dar-lhe a palavra, e isso tenho estado a fazer. Para não faltar inteiramente ao prometido, vou oferecer um ramalhete de poemas recentes, que intitulei “A rosa de cada dia”.
* As referências à poesia de Alberto Caeiro foram retiradas do livro: CAEIRO, Alberto. Poesia. Edição de Fernando Cabral Martins e Richard Zenith. Lisboa: Assírio & Alvim, 2001
Texto escrito pela Professora, Investigadora, Escritora e Poetisa Teresa Rita Lopes.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Palestra - Teresa Rita Lopes

Teresa Rita Lopes fará dia 9 de Setembro, no final da tarde, a palestra de encerramento do congresso interdepartamental da F.C.S.H. (Universidade Nova de Lisboa - http://www.fcsh.unl.pt/agenda/2011-maio/flowers-fleurs-flores/?searchterm=None), sobre "Flores", intitulada "Dai-me rosas, rosas / E lírios também", em que falará da presença das flores na poesia de Pessoa e oferecerá também um "ramalhete" de poemas seus em torno do tema.
Alguns dos seus belos poemas constam no blogue: http://www.apoesiadecadadiatrl.blogspot.com/

domingo, 21 de agosto de 2011

Armando Côrtes-Rodrigues, o poeta que a Ilha escondeu - Anabela Almeida


«Recebi uma antologia prefaciada por Eduíno de Jesus, aos poemas de Armando Cortes Rodrigues, que este me enviou, com dedicatória muito gentil. Confesso-lhe que pouco sabia dele, e era quase tudo em função de Fernando Pessoa. Agora, que se delineou a meus olhos uma personalidade definida, vejo que ignorava um poeta de verdade, dos melhores de Orfeu»               
Cleonice Berardinelli, carta a Joaquim Montezuma de Carvalho, em 16/7/1956


Anabela Almeida
(annabelaalmeida@gmail.com)
Armando Côrtes-Rodrigues foi-me apresentado pela professora Teresa Rita Lopes num seminário de estudos pessoanos de um longínquo mestrado de 1992-1994. Eu e os meus companheiros desbravávamos os caminhos de Orpheu e, tendo ficado intrigada com aquele «Armando Violante de Cysneiros», percorri as livrarias da capital na tentativa de o conhecer. Porém, nada mais consegui que um exemplar da antologia prefaciada e organizada pelo professor Eduíno de Jesus, em 1956, de resto, o livro que deu a conhecer o poeta açoriano, nos últimos 50 anos, à maioria dos poucos que o conhecem neste lado de cá do Atlântico e, ouso afirmar, em terras ilhoas.
     A razão da ausência do poeta no continente deu-ma um livreiro: «As edições açorianas não circulam por cá». «As edições açorianas»! Mas se não circulam, em Portugal, as edições portuguesas, por onde circularão elas? Retorqui com esta interrogação retórica que expressava a minha perplexidade. - Não podia ser! -. Afinal, quando eram passados quase vinte anos sobre o 25 de Abril, Açores continuava a ser distância, a aproximação que duas horas de um voo nos trouxera, fragilizava-se nos livros que não chegavam sequer ao cais. Assim era há vinte anos e, tanto quanto me parece, assim continua a ser. No entanto, ainda que não existisse este absurdo, não teria encontrado a maior parte da obra publicada de Côrtes-Rodrigues e, tão só, porque estava esgotada e assim continua.
     Dirigi-me então às bibliotecas das duas principais Faculdades de Letras de Lisboa e também aí nada mais encontrei do poeta. A gentileza do Instituto Cultural de Ponta Delgada e da Livraria Gil fizeram-me chegar a Lisboa o que havia nos Açores e a Biblioteca Nacional forneceu-me o resto.
     A obra publicada do poeta consta de: três peças de teatro, uma delas, Quando o Mar Galgou a Terra, adaptada ao cinema; quatro livros de poesia publicados pelo poeta e dois póstumos; uma antologia organizada e prefaciada por Eduíno de Jesus; dois volumes de “crónicas”, Voz do Longe; um volume da correspondência com Eduíno de Jesus que inclui a que este poeta lhe enviou; três volumes do Cancioneiro Geral dos Açores, dois do Adagiário e um do Romanceiro, textos da Literatura oral, tradicional e popular recolhidos e organizados pelo poeta; prefácios e posfácios e centenas de outros textos (crónicas, ensaio, entrevistas, discursos, …) dispersos pela imprensa, bem como poemas, contos e textos para teatro. É obra!
     Sessenta anos de escrita de um poeta que eclodiu em Orpheu e que, de volta à sua Ilha, revela um novo aspecto da sua estética com o livro Em Louvor da Humildade, uma poesia de carácter telúrico que pulsa com o movimento autonómico, bem como com os movimentos culturais portugueses que entre 1910-1915 se afirmaram em Portugal com pendor nacionalista. Esta heterogeneidade, aspecto fundamental da estética e ética modernista, continua a expressar-se em cada novo livro que publica, diferente, não oposto ou contrário, aos demais, Cântico das Fontes, Cantares da Noite, Horto Fechado e, postumamente, embora organizado pelo poeta, Planície Inquieta. De resto, é ele quem deste modo de si fala, ainda que seja avesso a falar de si:
«De facto, quando atento em tudo o que escrevi, vejo uma irregularidade de linha evolutiva e que tracei sem descortinar os motivos disso, tão naturalmente ela brotou de acasos da vida. (…) Se tivesse continuado em Lisboa não teria escrito “Em Louvor da Humildade” (…) Vim de Orfeu, desci ao Povo, subi a uma fase de franciscanismo mais intenso em “Cântico das Fontes”, meti-me outra vez a caminho de Orfeu com “Cantares da Noite” e depois e mais “Horto Fechado” e de novo me encontrei surpreendido outra vez na fase inicial, voltado novamente para a terra no livro que ando a escrever»[1]
     Armando Côrtes-Rodrigues nasceu em Vila Franca do Campo, em S. Miguel, em 1891, precisamente no mesmo ano e no mesmo espaço em que outro grande poeta, Antero de Quental, pôs termo à vida. Em 1910, veio estudar para Lisboa e, 5 anos depois, regressa à sua Ilha onde para sempre se fixará. «Difícil não é vir, mas ficar. Difícil não é ficar, mas voltar»[2]. Dirá, em Lisboa, João Afonso, a propósito do insulamento do poeta açoriano. Com efeito, Côrtes-Rodrigues veio, ficou, mas voltou. Da Ilha, onde se fez árvore[3], tentou erguer pontes por onde circulasse, nos dois sentidos, a sua arte, estabelecendo correspondência com inúmeras figuras da literatura e cultura portuguesas e brasileiras, como foram, de entre tantos outros, Fernando Pessoa, Cecília Meireles, Eduíno de Jesus, Jorge de Sena, Vitorino Nemésio, Alberto Serpa, José Enes, Luís da Silva Ribeiro, Hernani Cidade, Castro Soromenho, Fernando Pires de Lima, Paulo Quintela, Dante de Laytano, Pedro da Silveira e David Mourão-Ferreira, no entanto, tal como acontecera com Cleonice Barardinelli, são muitos os que desconhecem “um poeta de verdade”. Oxalá consigamos, num futuro próximo, que sejam muitos a conhecer o poeta de quem Fernando Pessoa disse ser «directamente de Orpheu»[4] e sentiu ser ele, de entre todos os que constituíram a revista do século XX português, aquele que «melhor e mais de dentro»[5] o compreendia. Para tal pretendemos cumprir o desejo do poeta, expresso numa entrevista que deu a Mário Dias Ramos, poucos meses antes da sua morte física: publicar a sua obra completa e um «livrinho com as coisas daquele tempo», o Tempo de Orpheu.
Anabela Almeida é investigadora do Instituto de Estudos sobre o Modernismo e prepara, actualmente, sob orientação do professor Fernando Cabral Martins, a sua tese de doutoramento sobre Armando Côrtes-Rodrigues. O seu trabalho implica também preparar a reedição crítica da obra édita e dispersa e a publicação da obra inédita deste poeta do modernismo português.



[1] Armando Côrtes-Rodigues – Eduíno de Jesus, Correspondência, Ponta Delgada, Museu Carlos Machado, 2002, pp.87 e 89
[2] A Vila, Vila franca do Campo, 12/11/1960, p.2
[3] «Sou uma árvore diante /Da paisagem da vida…/Meus sentidos, raízes que se afundam / Mais fundo pela terra ressequida, /E folhas que se inundam / De sol delirante / E de chuva de dor, que anda caindo, /Em sobressalto, / A encharcar o mundo…// Mas ao alto, muito ao alto, / Meu coração é uma flor sorrindo  /Para o céu profundo,» Côrtes-Rodrigues, Cantares da Noite – Seguidos de Poemas de Orfeu, Ponta Delgada, Gráfica Regional Editora, 1942, p.43
[4] Nós os de “Orpheu””, Sudoeste, Lisboa, Nº3, Nov. 1935
[5] “É o Côrtes-Rodrigues quem, de todos, melhor e mais de dentro me compreende. Dizer-lhe isto», Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal, edição e posfácio de Richard Zenith, Lisboa, Assírio & Alvim, Outubro, 2003, p.149


domingo, 7 de agosto de 2011

Sobre a língua portuguesa - Teresa Rita Lopes


Não foi Pessoa, não senhor, quem disse que a língua é uma pátria. Junqueiro antecipou-se-lhe. E alguns outros o têm afirmado, cada um à sua própria maneira.
A verdade é que há entre as pessoas que falam a mesma língua materna uma funda irmandade que a cor da pele pode parecer desmentir. Ter a mesma língua materna é como ter mamado na mesma teta, é ter crescido para a vida sustentado pelo mesmo leite.
    A língua portuguesa e a cultura que, através dela, se manifesta é o nosso património mais precioso. Só ela nos fará durar para lá do nosso tempo e do nosso espaço. Mas pouco fazemos por isso. E não temos, disso, suficiente consciência.
    É voz corrente que o português anda deprimido com a imagem que as estatísticas da U.E. lhe dão de si próprio.  E uma nação precisa de ter o brio de ser quem é. Não somos bons para criar riqueza, está visto, para criar dinheiro a partir de dinheiro. Entre os reprodutores do capital ficamos sempre a perder. É que somos ainda meio campónios, para nós a criação só é concebível a partir de um ser vivo que se reproduza. Ao campónio que somos eu vou dizer que a nossa língua portuguesa é um cabedal que não cabe em conta bancária nenhuma : é uma galinha com muitos pintos – já que falamos de criação…- esses inúmeros falares a que deu vida pelo mundo fora.
    Além de nos projectar para lá da tacanhez do nosso rectângulo, o contacto praticado com esses diferentes falares pode ter o salutar efeito de rejuvenescer a nossa língua-mãe, menos maleável por ser mais velha. Infelizmente esse nosso contacto limita-se ao consumo de novelas brasileiras, através da televisão. É quase nada mas melhor que nada: podemos assim sentir a “gostosura”  que a nossa língua pode ter quando falada  por brasileiros. É que o português do Brasil é mais criativo, mais moldável pela afectividade que nos caracteriza, a nós e a eles: pegam numa palavra, por mais invariável que a gramática diga que ela é, e acrescentam-lhe um sufixo que a torna mais saborosa. Apesar de abusarmos dos diminutivos, nós não dizemos “nunquinha” para tornar “nunca” mais definitivo, nem “unzinho”, bem mais terno que “só um”, para pedir um beijo ou um abraço…Bem que o Guimarães Rosa soube levar às suas últimas consequências expressivas as potencialidades em que a nossa língua é rica. Também outros escritores africanos de língua portuguesa o fazem hoje em dia, e nós deliciamo-nos com o sabor que a nossa língua tem com esses condimentos.
    Pouco fazemos para cultivar esses contactos enriquecedores. Até os livros pouco ou nada circulam – os nossos, lá e os deles, cá – por razões monetárias : é que a venda dos livros é um negócio , como o de qualquer outro produto, e quando essa circulação não é rentável, não acontece. Teria que haver uma porfiada política cultural para acudir a essa situação.
    Quando descobrimos essas terras , éramos poucos para as povoar. Agora estão povoadas, não somos é capazes de praticar a nossa irmandade. Não basta proclamarmo-nos nações irmãs.
    Temos, por outro lado, de dar aos portugueses de segunda geração espalhados pelo mundo o brio de pertencerem a essa língua-pátria e condições para praticarem a sua cultura. É uma árdua mas importantíssima tarefa.
    A ortografia é um problema menor. Pessoa queria restabelecer a antiga ortografia com base etimológica. Sou inteiramente contra. Uma das razões por que o Francês perde alunos é a tremenda dificuldade que a sua ortografia –etimológica – põe aos aprendizes da sua escrita. A ortografia é sempre uma convenção. Convencionemo-la, pois, da forma mais simples e sensata. Sem pruridos nacionalistas, com tem acontecido
nos nossos tormentosos acordos ortográficos com o Brasil.
Uma coisa é certa: o nosso futuro está nessa grande pátria mestiça que, através da língua, podemos ser. E a mestiçagem é sempre enriquecedora, quer se trate da língua, do sangue ou dos géneros literários.

Carta de Álvaro de Campos*


Tive conhecimento do burburinho causado por uma prova de exame em que um dos meus poemas foi razoavelmente maltratado pelos examinadores. Queriam eles que os examinandos detectassem as sensações que eu estava experimentando quando o escrevi, porque lá digo que “vi” (e não repararam que acrescentei “mas não vi”) e que imagino os vizinhos da frente a cantarem dentro de casa (embora não tenha a certeza: “Sim, devem cantar…” traduz uma suposição). 
Ora a verdade é que eu não estava experimentando sensações nenhumas: estava pura e simplesmente, como frequentemente me acontece, às voltas na cama com a minha insónia crónica. E o poema segue o curso desses esfarrapados pensamentos que me assaltavam. Bom, mas já outros comentadores disto falaram, odeio analisar os meus poemas. E também que os outros os analisem. Escalpelizar um poema implica matá-lo primeiro para depois  lhe fazer a autópsia. É pior do que espetar borboletas num álbum: as borboletas, embora percam o essencial, o movimento, pelo menos conservam a beleza da cor e da forma das asas, enquanto que o poema perde tudo, beleza e movimento, como um cadáver na morgue.
Para as perguntas que fazem (ainda por cima mal feitas!) querem os examinadores que os examinandos respondam de uma certa e única maneira. Ora a Literatura, em geral, e a Poesia, em particular, não são ciências exactas, como a Física ou a Matemática. Um poema pode ser objecto de várias leituras, ao ser acolhido pela subjectividade de um ouvinte ou leitor. A relação que um poema (ou qualquer outra manifestação artística) estabelece entre autor e receptor é intersubjectiva: põe a subjectividade de um em comunicação com a do outro, desencadeando neste emoções que têm que ver com as suas vivências existenciais e culturais.
Porque é que os senhores examinadores não se limitam a pedir aos examinandos o comentário de um determinado texto (evitem maltratar poemas que não vos fizeram mal nenhum!) que lhes permita averiguar se eles sabem exprimir correctamente por escrito o seu pensamento, e, já agora, se sabem pensar?! Era isso que lhes devia ser pedido - e, antes disso, ensinado, claro!
Os examinandos submetidos à traumatizante experiência deste exame vão ficar vacinados contra a minha poesia para o resto dos seus dias. De futuro, por favor, deixem os meus poemas em paz! Há por aí tanta prosa desempregada ou mal empregada!
Ponham os pobres alunos a escrever, sem erros, com clareza e precisão, uma carta à família – que é coisa de que todos precisam, quer se destinem às letras, às ciências ou às artes.
O gosto pela Poesia, como pelas flores, pelo mar, por namorar, nasce com o ser.
Um poeta popular do meu Algarve natal, António Aleixo, disse que “não se ensina, não se aprende / Nasce e morre com a gente”. E ele é um exemplo disso. Mas comentários como o que os examinadores deste exame pretendem, ah esses podem inocular no indefeso ser dos examinandos uma definitiva aversão para com tudo o que dê pelo nome de Poesia!
 E se querem impor às crianças modelos rígidos, sugiro que os ponham a fazer redacções como as do meu tempo, sobre a vaca, o mar, o porco, que começavam e acabavam sempre da mesma maneira. Por exemplo, sobre

                                           A  Poesia

A Poesia não é muito útil para a nossa alimentação.
Da Poesia fazem-se poemas e até livros. Os livros servem para pôr nas estantes, sobretudo se tiverem capas bonitas e não estiverem muito estragados.
Os donos dos livros nunca os abrem para não os estragar.
Eu gosto muito de Poesia.
Data e nome.

Foi a fazer redacções destas que me tornei escritor.


Carta de Álvaro de Campos – recebida mediunicamente por Teresa Rita Lopes

Comentário à Prova Escrita de Português - ( 12º ano de escolaridade – Julho 2011)




Pediram-me a minha opinião sobre a “Prova Escrita de Português”, a que os alunos do 12º ano de escolaridade foram recentemente submetidos. Hesitei em pronunciar-me publicamente mas a minha antiga costela de militante (sem Partido), obrigou-me a aceitar fazê-lo, perante a constatação de que os resultados obtidos foram catastróficos: alunos que tinham tido altas classificações durante o ano lectivo saíram do exame com negativa. O pior é que isso, para muitos deles, representa a impossibilidade de se habilitarem a entrar nos cursos para que se sentem vocacionados por ficarem, com essa  nota a Português, com uma classificação inferior à requerida para o seu acesso. E isso é grave, porque está em jogo o futuro desses jovens. Por isso, arregacei as mangas e pus-me a analisar (como aliás sempre gostei de fazer com os meus alunos e espero que os professores o façam com os seus) o poema de Álvaro de Campos que lhes coube em sorte: um do penúltimo ano de vida, de 16.6.1934, que começa “Na casa defronte de mim e dos meus sonhos”.
A escolha do poema foi infeliz: o seu bom entendimento implicaria um conhecimento aprofundado da poesia de Campos que não pode ser exigido a alunos deste nível. Além do mais, as perguntas não estão bem formuladas nem são as que conduziriam ao entendimento do poema que se quer averiguar se o aluno teve (e que duvido os próprios examinadores tenham tido, perante tais perguntas e os “cenários de resposta” que apresentaram).
A primeira pergunta, sobre “as duas sensações representadas nas quatro primeiras estrofes”, distrai da verdadeira compreensão do poema, que é, do princípio ao fim, a taquigrafia de um monólogo a que Campos se entrega, como em muitos dos seus outros poemas. Através dele, vamos assistindo à marcha do pensamento do Poeta e ao desfilar dos sentimentos que desencadeia. Porque é de sentir sentimentos e não “sensações” que o poema essencialmente trata. Quer o examinador, nesta primeira pergunta, que o aluno fale “das sensações visuais e auditivas” presentes nas quatro primeiras estrofes do poema. É ter em pouca conta a sua inteligência querer apenas fazê-lo provar que o Poeta não é cego nem surdo, porque diz “que viu mas não viu” e que ouve vozes no interior da casa (como se explicita no “cenário da resposta”). Nada nos diz que o Poeta não está à sua secretária, a evocar apenas o que habitualmente vê e ouve: não assistimos a uma verdadeira reacção a um estímulo sensorial. Das pessoas que moram em frente diz, com um verbo no passado (portanto, evocando uma visão, não vendo): “vi mas não vi”. Também as ouve, aparentemente  da mesma forma: das “vozes que sobem do interior doméstico” diz que “cantam sempre, sem dúvida”, o que mostra que não as está a ouvir mas a imaginar (logo, é imaginação, não sensação). O verso seguinte “Sim, devem cantar”, reforça a suposição. Seria preciso, ao formular as perguntas, respeitar o facto indesmentível do poema ser um monólogo que o Poeta murmura por escrito enquanto contempla, talvez só com a imaginação, “os outros”– esses vizinhos que vê sem ver porque lhe são inteiramente estranhos.
O que seria preciso entender – e sobre isso sim, questionar o aluno – é que o Poeta olha (ou se imagina olhando) para a casa fronteira à sua como um menino pobre para uma montra de brinquedos: tudo o que aí vê e ouve é uma manifestação dessa “felicidade” que ele não sabe o que é mas cobiça: crianças, flores, cantos, festas. “Que felicidade não ser eu!” Falando várias vezes o Poeta de “felicidade”, seria pertinente questionar o examinando sobre o sentido desse sentimento (bem mais importante do que as sensações ver e ouvir que querem que ele referencie).
Pedir para caracterizar o tempo da infância tal como é apresentado na terceira estrofe do poema, e esperar, como se vê no “cenário da resposta”, que o aluno apenas fale “do ambiente de despreocupação feliz, sugerido pelo acto de brincar”é de uma profunda  superficialidade …
Quanto à pergunta seguinte sobre “a relação que o sujeito poético estabelece com os outros” percebe-se, pelo “cenário da resposta”, que o examinador quer que o aluno fale apenas da “diferença”que o Poeta sente que o separa dos “outros”, porque «os “outros” são felizes».  O facto do Poeta exclamar “São felizes porque não são eu” mostra que essa “felicidade” é, não um verdadeiro sentimento que os outros experimentem mas o sentimento que o Poeta tem de que é uma sorte ser outra pessoa qualquer, que o verso seguinte “Que grande felicidade não ser eu!” exprime plenamente.
Seria interessante, isso sim, fazer o aluno falar sobre o papel e o significado das interrogações súbitas, nomeadamente “Quais outros?” porque são elas que traduzem e nos fazem assistir ao evoluir do pensamento do Poeta, que se põe em causa a si próprio, isto é, ao que está pensando no decurso do seu monólogo interior. Assistimos, assim, à transição, desencadeada por essas perguntas, de um “eu” para um “nós”: do sentimento inicial de solidão total, de ser apenas um “eu”, uma ilha de solidão, ao de pertencer a um “nós” – a humanidade: “Quem sente somos nós, /Sim, todos nós” - embora cada um a sós consigo. Cada um sente e sofre sozinho mas isso não o impede de fazer parte de um “nós”. Seria demais esperar que o aluno soubesse dizer que é esta uma característica da atitude de Campos: o sentimento de que é uma ilha de solidão, quando diz “eu”, mas de que pertence a um arquipélago, quando pronuncia “nós”. Mas não seria excessivo esperá-lo do examinador.
A última questão presta-se a muitas respostas, não apenas à que é indicada no “cenário de resposta”, que espera referências à “dor” e ao “vazio” “expressos na última estrofe, particularmente no verso «Um nada que dói…»”. Os examinadores não perceberam a sua subtilíssima ironia: depois de afirmar que “já” não está sentindo nada, o Poeta corrige-se, com um sorriso de vaga ironia triste: “um nada que dói”. Se o aluno conhecesse razoavelmente Campos – o que seria demais exigir-lhe mas não ao examinador– referiria que esse incómodo, essa vaga dor é o que, noutro poema, o Poeta chama “o espinho essencial de ser consciente”.



Só uma nota: não estou a querer pôr ninguém em causa: não sei nem quero saber quem elaborou esta “prova”. Estou apenas a obedecer ao meu velho tropismo de querer ser útil. (Que, diga-se de passagem, muitos dissabores me tem trazido ao longo da minha já longa vida.)



Teresa Rita Lopes

Para aceder ao enunciado  e assinar a petição, consultar:

http://www.protestoexame2011.blogspot.com/

A Biblioteca Particular de Fernando Pessoa - Carla Gago


A biblioteca particular de Fernando Pessoa (BpFP) configura um testemunho imprescindível para elaborar uma biografia intelectual do autor. A partir da biblioteca pessoal é possível reconstruir indicações bibliográficas esbatidas ou esquecidas com o tempo, fazer reaparecer polémicas esquecidas ou ainda diálogos inesperados com outros criadores literários, reconstituindo, assim, um contexto intelectual mais vasto, e permitindo um diálogo, por vezes inesperado, com áreas específicas do interesse dos autores. Tal como, por exemplo, a questão de uma formação científica mais específica e especializada em Pessoa: a quantidade de volumes especializados denota uma reflexão mais profunda relativamente a temáticas de ciências naturais do que esperaríamos num poeta.
Embora notoriamente reservado em relação às suas dívidas intelectuais, Pessoa era, na verdade, um leitor voraz e a sua produção literária está profundamente impregnada pelas obras que leu. O autor, que é em primeira instância leitor e intérprete antes de ser produtor de sentido(s), permite-nos, através do testemunho material dos seus livros pessoais aceder à dimensão da génese literária e, consequentemente, indagar o estatuto intertextual da sua produção, o diálogo com outras obras, o que recupera ou recusa explicita ou implicitamente.
A BpFP constitui material muito importante ainda a desbravar. As leituras de Pessoa foram, durante muito tempo, se não votadas ao esquecimento, relativizadas e reduzidas ao que o filólogo Mazzino Montinari, no seu incansável trabalho no espólio de Friedrich Nietzsche, designou de ligações “ideais”:

Um capítulo que (...) ainda tem de ser escrito, é o relativo às leituras de Nietzsche. A literatura de “culto” sobre Nietzsche, que começou com Gast, não queria utilizar estas fontes valiosas para não “empobrecer” Nietzsche; a crítica “filosófica” (Löwith – Jaspers? – Heidegger) achava-as menos relevantes do que do que determinadas ligações “ideais”, que descobria em Nietzsche-Hölderlin-Hegel- etc, etc. (25 de Junho de 1966, tradução nossa)

Também Pessoa foi reduzido às “ligações” mais imediatas - no seu caso, as da tradição anglo-saxónica, tal como Whitman ou Browning, pois à primeira geração de pessoanos careceu de distanciamento (principalmente devido ao determinismo biológico) e de uma abordagem necessariamente transdisciplinar para a análise do acervo, optando por relevar antes outros aspectos que, na sua perspectiva, engrandessessem Pessoa, descobrindo, assim, as tais ligações “ideais”. Fernando Pessoa, que mobiliza sempre referências teóricas e estético-literárias de grande elevação, está ao corrente das discussões mais importantes no espaço europeu nas diferentes áreas do saber, constituindo uma absoluta excepção no panorama intelectual português do início do séc. XX.  Não é de estranhar, por isso, que a própria crítica, nomeadamente a primeira geração de pessoanos (mas que influenciou todas as posteriores), não obstante os méritos que se lhes tem obviamente que reconhecer, não conseguissem “encaixar” estas leituras e conceitos nas grelhas de interpretação da obra pessoana.
Com efeito, quando se estuda a BpFP, é necessário ter em mente o contexto intelectual de fin-de-siècle e início do século XX, no qual a explosão de interesses científicos conduz a uma permeabilidade entre as várias disciplinas. Esta promiscuidade temática (Literatura, História, Física, Biologia, Sociologia, etc) faz com que os assuntos que o investigador procura se encontrem muitas vezes em volumes não muito apelativos para o leitor de hoje e que, à primeira vista, não se prendam necessariamente com o tema em questão. É preciso que se diga ainda que, na lista bibliográfica da BpFP, muitos são os volumes que não residem na classe mais adequada (tal não foi corrigido nas últimas publicações relativas à bibliografia da biblioteca, o que prolongará durante algum tempo este handicap), exactamente por os títulos induzirem muitas vezes o bibliotecário ou o investigador em erro quanto ao assunto ou por serem simplesmente de difícil classificação em só uma das dez classes da BpFP.  
            Pelos motivos aduzidos, torna-se, assim, óbvio, o estudo do “miolo” do acervo de leituras de Pessoa (que vai muito para além de uma mera datação de leituras). Só examinando os stimuli de Pessoa é que poderemos entender com a profundidade necessária os temas e as questões para as quais os seus escritos são resposta. Tal levanta, necessariamente, a questão do que é em Pessoa influência directa e indirecta: de Nietzsche, por exemplo, apesar de não constar qualquer volume no acervo, as referências ao filósofo do martelo encontram-se disseminadas por inúmeros volumes na BpFP.
A extensa  marginalia que encontramos nos volumes da biblioteca é notoriamente imprescindível para compreender a «intensidade» e a perspectiva da leitura do autor, mas as linhas de investigação com base na BpFP que, na nossa opinião, serão, para além de mais estimulantes, mais bem consolidadas e que poderão apresentar resultados mais profícuos - pese embora o alto grau de dificuldade da tarefa - são as que estão ligadas a um trabalho arqueológico que consiga reconstituir o trilho de alguns conceitos disseminados pela sua obra e que remetem para leituras que efectuou.
Na BpFP, como não poderia deixar de ser, a questão incontornável é a Literatura, que aparece, no entanto, confrontada com temas vários (o positivismo científico, as filosofias da História, a filosofia das ciências, a psicologia experimental, etc), sendo dois dos grandes vectores (se não os grandes vectores) a Religião e a Ciência. Quanto a esta última, seria de certa forma inconcebível que Pessoa não tivesse acompanhado os avanços científicos do final do século XIX. Nesta altura, nenhum intelectual que ambicionasse uma interpretação do universo poderia dar-se ao luxo de ignorar o novo mundo das ciências. Mesmo a filosofia, área cara também a Pessoa, ia, nesta altura, de mãos dadas com o fascínio pelas ciências naturais. É de sublinhar, ainda, que as leituras feitas por Pessoa,  que abarcam todas as novas disciplinas científicas à época, que vão desde a psicologia experimental às teorias evolucionistas, passando pela termodinâmica e pela física, não lhe providenciaram unicamente novas ideias e teorias que ele explorou nos seus escritos mais teóricos mas também conceitos, ideias, imagens e metáforas que se encontram disseminados pelo seu universo textual. Tal como a insistência no conceito de “instinto” que à primeira vista se poderá dizer nietzschiano ou bergsoniano, mas que na verdade poderá ser lido no sentido de uma moral evolucionista do seu tempo, e cujo substrato assentará, exactamente, em teorias evolucionistas.
Em suma: um estudo da BpFP a partir de uma perspectiva transdisciplinar permitirá não só uma melhor compreensão das práticas intelectuais de uma época, mas sublinha também em que medida o ambiente intelectual, no qual e em função do qual o autor teve uma determinada produção, é essencial para a compreensão da obra.
Carla Gago é investigadora pessoana, uma renomada especialista na biblioteca particular de Fernando Pessoa e integrante do Instituto de Estudos sobre o Modernismo. Estudou Línguas e Literaturas Modernas e Literatura Comparada na Universidade Nova de Lisboa, Universidade Humboldt e Universidade Livre (FU) de Berlim. Foi leitora de Língua e Cultura portuguesas nas universidades de Rostock e Leipzig, estando a concluir a sua dissertação de Doutoramento sobre o género dramático em Fernando Pessoa. Tem vários artigos publicados sobre temas de Estudos Portugueses em revistas, enciclopédias de autores e volumes portugueses e internacionais. 

O Fantástico em Fialho de Almeida e Jean Lorrain - José António Costa Idéias

Pessimismo e Decadentismo Finisseculares
[Outubro de 2010]
José António Costa Ideias
(FCSH-UNL)


 Neste trabalho de Doutoramento em Estudos Portugueses, na especialidade de Estudos Comparatistas, debruçamo-nos sobre um conjunto de práticas narrativas (privilegiando o conto e a narrativa breve), de finais de oitocentos e inícios do século XX - em Portugal e em França - cuja leitura analítica permite melhor compreender um processo de criação literária que parte fundamentalmente da oposição ao Realismo-Naturalismo e que, na gestação híbrida e “imprecisa” de uma narrativa “nova” – na confluência e imbricação de múltiplas estéticas diversificadas – se vai encontrar, largamente, na base do que se considera ser a modernidade estética do século XX. Com efeito, tentamos entender as práticas narrativas de Fialho de Almeida (1857-1911) e de Jean Lorrain (1855-1906) como lugares espectaculares e fantasmáticos de revelação e de denúncia de uma crise ideológica e da sua encenação significante (na recorrente oscilação entre o “documento” e o “fantasma”) que se formaliza numa constante tensão entre o apelo do real e a superação do mesmo - em torno de específicas estratégias discursivas, caracteristicamente finisseculares.
No caso de Fialho, privilegiamos uma leitura de alguns dos seus textos (ainda largamente integráveis na estética naturalista) acentuando a tensão Naturalismo-Decadentismo (os determinismos do meio e da hereditariedade degenerescente e os recorrentes topoi da sensibilidade e do imaginário decadentes que, por via de uma estratégia de representação “deformante” – uma “estética do grotesco” – abre o texto a vastas zonas de um fantástico “físico”, “exterior”), tensão que se nos afigura estruturadora da sua “heterodoxia” estética. Em Jean Lorrain, atentamos na marcada preferência decadente pelos espectáculos do artifício, pelas estéticas da perversão e da surpresa, pela representação e exploração de um fantástico “interior”, da máscara (elemento central do fantástico lorrainiano), num drama espiritual feito de desencontros
 do sujeito consigo mesmo e com o o”outro”.

Tentamos, deste modo, caracterizar os diversos “fantásticos” em Fialho e em Lorrain como motor deste tipo de práticas literárias genelogicamente transaccionais que representam (dão a ler) a vivência pessimista de um real agónico que se procura superar. Na abordagem comparativa dos dois autores – no gesto de aproximação relacional - descobrimos a partilha de uma sensibilidade epocal que, experimentando, cada um a seu modo (em convergências e em divergências) tratarão espaços, personagens, tipologias - que constituem aquilo que designamos como os “fantásticos” em ambos os autores. Respostas diversas a uma comum vivência de um tempo histórico crítico que se encontra na base da génese da modernidade estética do século XX, com prolongamentos
 no nosso século.

(Dissertação de Doutoramento em Estudos Portugueses – Estudos Comparatistas, apresentada à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade Nova de Lisboa (UNL) em Outubro de 2010 e defendida publicamente em  2 de Maio de 2011).
Prof. Doutor José António Costa Ideias
Doutorado em Estudos Portugueses, na especialidade de Estudos Comparatistas.
Investigador em Estudos Neo-helénicos e Estudos Literários/Culturais Comparados. Membro do IEMo.
Docente do Ilnova /FCSH-UNL (Grego Moderno -Língua e Cultura). Tradutor literário. Ensaísta.